Governo da Bahia vai avaliar recomendações da Comissão da Verdade do estado

18/08/2016 - 11:13 |

 

REDAÇÃO

A Secretaria de Justiça e Direitos Humanos da Bahia vai avaliar a viabilidade de implantação das propostas apresentadas pela Comissão Estadual da Verdade, que concluiu seus trabalhos após três anos e meio e entregou o relatório final das atividades ao governador do estado, Rui Costa. No entanto, ainda não há prazo para análise das sugestões, segundo o órgão.

Com mais de 2 mil páginas em três volumes, o documento diz que as perseguições políticas na Bahia durante a ditadura começaram desde o primeiro dia do golpe militar, em abril de 1964, e que a repressão e a retaliação aos contrários ao regime atingiram todas as esferas da sociedade baiana.

Ao todo, segundo a comissão, 538 pessoas tiveram direitos violados na Bahia, durante os 21 anos de ditadura militar, entre 1964 e 1985. Dos 426 mortos ou desaparecidos em todo o Brasil no período, 32 são baianos.

Elaborado com base em depoimentos de presos políticos e de parentes de pessoas desaparecidas na Bahia e de documentos coletados em instituições como universidades e câmaras municipais do estado, o relatório final da Comissão da Verdade baiana traça um roteiro das violações de direitos humanos no período, aponta casos não resolvidos e sugere medidas de reparação e preservação do direito à memória.

Tortura

O presidente da Associação Bahiana de Imprensa e integrante da comissão Antônio Walter Pinheiro disse que o grupo conseguiu tomar depoimentos importantes, apesar da dificuldade de ouvir relatos de violência e tortura sofridas pelas vítimas da ditadura.

“O que mais me chocou foi o desrespeito, a forma banal como integrantes das forças de segurança tratavam os cidadãos. No momento em que – participando de um depoimento desse – se assiste aquele que foi torturado relatar o que sofreu, na forma como foi, bastava ele contar para [me] arrepiar, imaginando o que ele tinha passado com as torturas, seja aqui, seja no Rio [de Janeiro], seja em Alagoinhas, em Feira de Santana, que foram alguns pontos para a prática da tortura. É algo que deprecia muito e me choca como humano”, disse Pinheiro.

Filha de uma das vítimas da tortura na Bahia, a professora e psicóloga Tatiana Rollemberg lembrou que a mãe, Eliana Rollemberg, hoje com 72 anos, chegou perto da morte por causa da violência a que foi submetida na prisão entre 1970 e 1972. Com a mãe presa, Tatiana foi viver no exílio na França com o pai e uma tia. Quando foi solta, a mãe também se mudou para a Europa e a família só retornou ao Brasil depois da Anistia.

Ao lembrar a história da mãe, Tatiana diz esperar que os relatos ouvidos pela Comissão da Verdade sirvam para que as vítimas da ditadura sejam reconhecidas e os casos de violência, esclarecidos, para que não voltem a se repetir. “Espero, realmente, que essas pessoas tenham a bravura reconhecida. Tenho o sentimento de injustiça do que aconteceu. E com tudo o que a gente passou, vale a pena a luta, porque temos que continuar acreditando na democracia”, disse a professora, uma das representantes de torturados a participar da cerimônia de entrega do relatório o governador, na última sexta-feira (12).

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