Por um Metrô Metropolitano até Camaçari

16/03/2011 - 16:14 |

 

BIRA CORÔA*

A extensão do Metrô de Salvador até Camaçari e Polo Petroquímico pode parecer uma ideia esdrúxula e de custo elevado, mas não é. Uma via sobre trilhos que parte da Calçada em Salvador e passa a 1.500 m da futura Estação de Metrô de Pirajá. Esta mesma via segue até Camaçari e daí ao Polo Petroquímico e prossegue até Alagoinhas, numa extensão total de 123 km. Para o Trem Suburbano alcançar o Metrô basta uma alça ferroviária – “é um pulo!”

É evidente que melhoramentos nesta via têm que ser feitos, além de alguns acréscimos como a construção de estações e dois grandes terminais intermodais: um em Simões Filho/BR–324 e outro no Polo Petroquímico. A ligação desta via com o metrô se dará com a extensão do trem suburbano até uma das duas estações mais próximas: Pirajá ou Juá, passando pelo bairro de Marechal Rondon, numa extensão entre 2 e 3 km de via nova.

Tomei conhecimento desta ideia quando ainda era vereador em Camaçari (2003 e 2004), apresentada por um engenheiro baiano especialista em transportes, com grande experiência ferroviária. Este, também, um militante do meu partido, mas que foi até minha presença levado por membros do Movimento Verde Trem.

Naquela oportunidade este engenheiro já falava em contrapor a audácia dos pernambucanos que projetavam a viabilidade da Ferrovia Transnordestina com cargas do nosso Estado. Estudava, em contraponto ao projeto dos pernambucanos e cearenses, a viabilidade da chegada de trilhos baianos ao Oeste da Bahia, de forma a evitar que a Bahia se tornasse, dentro do Brasil, um “quadrilátero de isolamento logístico”.

Em 2010 vi o júbilo deste pela concretização da sua ideia e da luta para fazer acontecer a ferrovia destinada a alcançar o Oeste Baiano, mas, ao mesmo tempo, a sua decepção por ver quase desprezada a ideia da ligação do Trem de Subúrbio com o Metrô e com Camaçari.

Dos dois sonhos do ferroviário engenheiro, um saiu do papel e o outro não, apesar de ambos constarem do programa de governo da campanha do nosso Governador Wagner em 2006.

Não se pode minimizar a importância do escoamento do minério de Caetité e da safra de grãos do Oeste, entretanto, não se pode desprezar a relevância do transporte de passageiros na Região Metropolitana de Salvador que vive um quase colapso. Afinal, as grandes cidades do mundo resolvem seus problemas de mobilidade urbana criando infraestrutura para dentro e, principalmente, para fora dos seus limites. Trata-se de distribuir bem a ocupação do espaço territorial. Investem em novos assentamentos urbanos bem estruturados e com bons transportes, com destaque para os transportes de massa sobre trilhos.

Portanto, a ideia do trem até Camaçari deve e precisa ser retomada. Algo que a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Urbano (Sedur) já deu os primeiros passos em 2007 e 2008, mas que, ao que parece, deixou cair no esquecimento. Os primeiros protocolos para criação de um Consórcio Gestor do Projeto Trem Regional Metropolitano de Salvador (CGPTRMS) com participação das prefeituras, do Estado e da União chegou a ser criado, apesar de resistência pontual de um dos futuros prefeitos a se tornar consorciado. Um episódio protagonizado pelo prefeito Luiz Caetano, de Camaçari, onde até se reconheceu à época seu excesso de zelo para com seus munícipes, vez que prometeu, em palanque, retirar os trens do centro da cidade de Camaçari.

Aconteceu que o prefeito percebeu o salto de modernidade que sua cidade experimentará com a instalação de equipamento tão útil como o trem, na versão bonde moderno, para passageiros e não mais cargas perigosas como dantes. Isto sem deixar de lado seu projeto de uma avenida naquela faixa do velho e saudoso trem da Leste, agora projetada para conviver com este que representará a Camaçari do futuro: o VLT ou bonde moderno.

A implantação do CGPTRMS interessa a todos, com exceção dos “lobistas” do rodoviarismo, sempre na contramão do desenvolvimento sustentável. A população da Região Metropolitana de Salvador (RMS) merece um sistema de transportes rápido, de massa e de qualidade. Que seja vetor (indutor) de uma expansão urbana bem planejada. Que seja capaz de proporcionar conforto e segurança, aproximando os vários centros comerciais e de serviços das diversas urbis componentes do território RMS e seu entorno.

As condições do momento político são as mais promissoras possíveis para empreendermos neste sentido. Em primeiro lugar, porque a via férrea existente entre Paripe e Dias d’Ávila se tornará ociosa em breve tempo com a construção da ligação Ferroviária do Polo com o Porto de Aratu, retirando os trens de carga dos centros urbanos de Camaçari e Simões Filho. Em segundo lugar, porque a Bahia e RMS (em especial) necessitam se preparar para recepcionar o fluxo turístico da Copa 2014 e o “seu depois”, fixando a oportunidade da população usufruir desse legado “pós-Copa”. Em terceiro lugar, aponto a inadiável decisão de enfrentarmos o crônico problema que envergonha a nós baianos: o malfadado Projeto Metrô de Salvador.

Um projeto eivado de desacertos e erros de origem que deu margem a uma obra de ritmo descontínuo, com uma gestão tumultuada, tanto do ponto de vista político como técnico-profissional. Nela são visíveis os improvisos e empirismos, denunciando uma condução desastrada e irresponsável. Exigindo, portanto, imediata intervenção dos poderes públicos. Para o que enxergamos a oportunidade de trazermos de volta a União, juntando-se com o Estado, através do arranjo institucional definido como consórcio público, onde entram também os municípios a serem envolvidos no empreendimento.

A Bahia precisa entrar nos trilhos, com o Consórcio de Gestão da Logística de Transportes na RMS englobando o Metrô e o Trem Metropolitano.

*Bira Corôa é deputado estadual do PT, presidente da Comissão Especial da Promoção da Igualdade (CEPI) e membro da Comissão Especial do Complexo Intermodal e da Ferrovia da Integração Oeste-Leste – Porto Sul.

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