Evasão escolar e criminalidade

31/01/2017 - 15:16 |

 

RUBENS F. PASSOS*

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O Brasil e o mundo estão assustados e estarrecidos com as cenas de extrema violência e barbárie ocorridas em nossos presídios. A guerra entre facções do crime organizado, travada dentro de estabelecimentos sob a tutela legal do Estado, mostra que o Poder Público não tem conseguido conter e controlar essas organizações, que se assemelham cada vez mais em sua estrutura e modo de operação aos mais sofisticados grupos terroristas internacionais.

Para a sociedade, dissemina-se um sentimento de indignação e medo. Os brasileiros não podem ficar reféns de uma situação como essa, cuja mitigação exige medidas urgentes e eficazes das autoridades. Há, contudo, a necessidade de um planejamento de médio e longo prazo, para se interromper o fluxo de conversão dos jovens à criminalidade. Nesse sentido, o ensino tem missão fundamental, o que reforça o erro histórico do Brasil de ter negligenciado essa prioridade durante tanto tempo.

Nesse contexto, é interessante resgatar estudo do ano de 2011, do professor Evandro Camargo Teixeira, do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo. Encontrei matéria sobre o trabalho no site da Agência USP. Os dados são conclusivos.

O estudo, realizado por meio de  modelos econométricos, é intitulado “Dois ensaios acerca da relação entre criminalidade e educação”. O docente concluiu que a criminalidade aumentou em 51% em todos os estados brasileiros, no período 2001/2005, devido à evasão escolar. O modelo associou e assinalou a proporção direta de crescimento entre abandono defasado ou evasão escolar e taxas de homicídio. Quando a evasão aumenta, o número de homicídios também cresce.

O próprio estudo ressalva não ser possível afirmar que todos os alunos evadidos das escolas transformam-se em bandidos. Segundo o pesquisador, quem abandona as aulas tem tanto a possibilidade de virar membro de uma gangue, quanto de simplesmente estar excluído do mercado de trabalho formal. Contudo, é inegável que a desocupação e a falta de conhecimento são portas de entrada para a criminalidade, o que confere pleno sentido à associação entre o índice de crescimento de homicídios e a evasão escolar.

Do mesmo modo, é inegável e direta a relação entre os graus e a qualidade da escolaridade e o desenvolvimento econômico de um país. Enquanto seguir colocando a educação em segundo plano, o Brasil retardará o seu ingresso num fluxo sustentável de prosperidade socioeconômica e seguirá perdendo muitos jovens para as fileiras do crime organizado.

 

*Rubens F. Passos é economista e presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes e Importadores de Artigos Escolares e de Escritório.