A volta do irmão de Henfil

25/07/2015 - 18:55 |

 

JOSÉ CARLOS TEIXEIRA

A campanha pela anistia ampla, geral e irrestrita foi lançada em janeiro de 1978, com a criação do Comitê Brasileiro pela Anistia, mas o movimento só iria ganhar seu hino em março do ano seguinte, quando a cantora Elis Regina gravou a canção O bêbado e a equilibrista, da dupla João Bosco e Aldir Blanc.

Nos versos da canção, o Brasil sonhava com a volta do irmão do Henfil e de outros brasileiros que embarcaram num rabo de foguete para escapar da ditadura – segundo o Comitê Brasileiro pela Anistia, havia, na época, cerca de 25 mil brasileiros exilados espalhados pelo mundo.

O irmão do cartunista Henfil, que a canção transformou em símbolo da luta dos que viviam no exílio para voltar ao país, era o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, então exilado no México, e que desde 1971, quando fora forçado a deixar o Brasil, já havia passado pelo Chile, Panamá e Canadá.

Betinho só regressaria ao Brasil em 18 de setembro de 1979, após a promulgação, no mês anterior, da Lei da Anistia, marco jurídico da redemocratização do país, que vivia sob a ditadura desde 1964. No seu desembarque, no aeroporto de Congonhas, foi recebido por um grande número de pessoas que cantavam O bêbado e a equilibrista.

A letra da canção – inicialmente pensada como uma homenagem a Charles Chaplin – fala ainda da dor das famílias dos que foram exilados, banidos ou mortos: “chora a nossa pátria, mãe gentil, / choram Marias e Clarisses / no solo do Brasil” – referências a Maria, viúva do operário Manuel Fiel Filho, e Clarisse, viúva do jornalista Vladimir Herzog, ambos mortos nos porões da ditadura.

Mas, apesar de tanta dor, havia esperança, diz a canção em seus versos finais: “Sei que uma dor assim pungente / não há de ser inutilmente, a esperança, dança / na corda-bamba de sombrinha”.

 

Veja a letra de O bêbado e a equilibrista e, logo abaixo, um vídeo com a interpretação de Elis Regina para a canção:

 

“Caía

a tarde feito um viaduto

e um bêbado trajando luto

me lembrou Carlitos.

A lua,

tal qual a dona do bordel,

pedia a cada estrela fria

um brilho de aluguel.

E nuvens,

lá no mata-borrão do céu,

chupavam manchas torturadas

- que sufoco!

Louco,

o bêbado com chapéu-côco

fazia irreverências mil

pra noite do Brasil, meu Brasil

que sonha com a volta do irmão do Henfil,

com tanta gente que partiu

num rabo-de-foguete.

Chora a nossa pátria, mãe gentil,

Choram Marias e Clarisses

no solo do Brasil.

Mas sei que uma dor assim pungente

não há de ser inutilmente,

a esperança, dança

na corda-bamba de sombrinha

em cada passo dessa linha

pode se machucar.

Azar! A esperança equilibrista

sabe que o show de todo artista

tem que continuar.

 

 

 

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